Os números comprovam: dois terços das mulheres entre 15 e 60 anos de idade evitam atividades básicas da vida porque se sentem mal com sua aparência; mais de 92% das garotas declaram querer mudar pelo menos um aspecto físico; nove entre dez mulheres querem melhorar alguma coisa no corpo. Os dados são da pesquisa mundial desenvolvida pela Dove/Unilever, em 2004.
A realidade dos números é cruel. São raras as mulheres satisfeitas com a sua beleza. A maioria corre atrás do padrão estético das beldades que posam para revistas e desfilam na TV. Quem não se encaixa nele - quase 90% delas - sente-se excluída e humilhada e tende a aceitar qualquer sacrifício em nome da "beleza ideal". Diante desse quadro, cabe perguntar: como as mulheres chegaram a esse ponto, depois de tantas conquistas importantes no último século? Quais são as conseqüências dessa obsessão para as adolescentes? Onde entram as "diferentes" nesse sistema? Por que é tão difícil aceitar a diversidade da beleza?
Em busca de respostas, a psicóloga Rachel Moreno escreveu o livro “A Beleza Impossível - Mídia, Mulher e Consumo” (Editora Ágora). Citando o estudo feito pela multinacional da área de cosméticos, ela condena o ataque diário da mídia e faz um alerta: existe uma possibilidade real de o excesso de vaidade se tornar um problema de saúde pública, dada a interferência da mídia, da publicidade e dos interesses do mercado na formação das crianças e adolescentes.
"O ideal de beleza cria um desejo de perfeição, introjetado e imperativo. Ansiedade, inadequação e baixa auto-estima são os primeiros efeitos colaterais desse mecanismo. Os mais complexos podem ser a bulimia e a anorexia", afirma Rachel, lembrando que mesmo as mulheres adultas podem ter sua estabilidade emocional afetada.
A autora propõe uma discussão entre mulheres, homens, pais e educadores sobre a forma como a mídia mexe diariamente com a auto-estima feminina. Ela alerta para os malefícios dessa imposição social e ensina a reconhecer os limites da ditadura da beleza, apontando caminhos para quem deseja se defender dessa influência.
As brasileiras, segundo a pesquisa, estão entre as que têm a auto-estima mais baixa - muito provavelmente em conseqüência do modelo de beleza eurocêntrico (padrão europeu) e inalcançável para a realidade nacional. De acordo com o levantamento, elas se submeteriam a todo tipo de intervenção estética para se sentirem belas.
Os dados, explica a autora, podem ser comprovados cotidianamente. Só em 2003, as brasileiras gastaram R$ 17 bilhões na compra de produtos cosméticos e de perfumaria. O Brasil também apresenta o maior índice de mulheres que declaram ter feito cirurgia plástica. Outros estudos revelam ainda que a população feminina no Brasil, comparativamente, é a que mais se submete a sacrifícios pela "beleza". Isso inclui dietas, malhação, remédios, cosméticos, entre outros tratamentos.
"A mulher brasileira busca se aproximar da silhueta típica das européias (mais longelíneas) ou das americanas (de seios mais fartos)". Isso mostra o quão maléfica é a influência da mídia. "As mulheres estão bastante desconfortáveis consigo mesmas. Desconfortáveis e provavelmente com sentimento de culpa. Uma geração com baixa auto-estima. A quem serve isso?", questiona Rachel. "A verdade é que isso vende”



























